Sento-me no ônibus, trem ou metrô. Do outro lado, um rosto, um olhar. Sinto conforto naqueles olhos. Algo de familiar me faz olhar quase sempre para ela. Não sei o motivo disso, eu nunca sei. Mas sinto um frio na barriga, sinto aquela vontade de puxar assunto. Por algum motivo que não entendi até agora, sinto que é recíproco. Os olhares voltam. Não chega a ser uma cantada ou flerte, mas a atração causada por algum tipo de sincronia. Não sei se é por termos quase tudo em comum, mesmo sem sabermos. Pode ser questão de hormônios ou até aparência. Talvez seja só coisa da minha cabeça, ou de fato tenhamos nos apaixonado quase que na mesma hora. Mas não importa o motivo. O que importa é que agora estou em queda. O chão some, a voz também. Até a capacidade de olhar fixamente me é tomada. Quando quero estabelecer contato visual, não consigo. Quando não quero que perceba, não paro de dar olhadas rápidas. Acho que poderia começar uma boa amizade, provavelmente devemos nos entender. Essa pessoa parece interessante de se conhecer.
Ela salta. Vai embora, provavelmente para casa. Vai continuar sua vida normalmente, e seu olhar nunca mais vai aparecer na minha. Não lembrarei mais dela no dia seguinte. Provavelmente nem lembrarei quando chegar em casa. Mas passo alguns minutos refletindo sobre tantas as maneiras que eu poderia ter usado para me aproximar. Será que ela também faz o mesmo?
Não é a primeira vez, não será a última. Essa pequena e súbita conexão é familiar para todos, mas parece que o prazer vem da pequena duração desses momentos. Momentos esses em que pensamos ser correspondidos e entendidos. Momentos únicos em que a pessoa não responde.

Adorei este texto é retrata muito bem uma situação ! Um quase flerte muito ocasional que acontece diariamente no vai e vem ou nas idas e vindas em nossas vidas! Parabéns!
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